Património

Património

 

 

Na meia encosta da Serra do Esporão espreguiça-se, serena, esta povoação, observada de longe pelo Marão e abençoada por um rio, outrora arrebatado, que agora adormece nos braços do Douro, sossegado.

Levanta-se o tempo passado e tudo se entrelaça para servir de aposento ao homem.

Aqui se instala, Domestica animais e paisagens, descobre a agricultura, constrói monuentos funerários vulgarmente conhecidos pela designação de antas para servirem de tumulação colectiva e transforma em objecto de culto gigantescas pedras onde crepitam perces antigas. Santificam-se os lugares.

Abre-se o aposento de outro tempo. Num vale protegido dos ventos e abundantemente enxaguado, erguem-se casas de pedra, algumas rectangulares, rodeadas por um corredor de entrada, serventia de romanos que se acolhem lá dentro.

Sobressalta-se o tempo e no recuado século VIII foes, pestes, razias e contínuas invasões assolam esta mancha da Peninsula Ibérica sem que o território estívesse razoavelmente humanizado. Cem anos volvidos, Afonso III das Astúrias avança para Sul pacificando a região. A parte Norte de Portugal começa a ter uma organização política que acompanha as presúrias e o repovoamento. Aparece então, sobre um pequeno esporão da encosta norte que preside à confluência do rio Tâmega no Douro, o local da "civitas de anaegia", pólo administrativo de um "território" sobre o Vale do Douro que engloba concelho de Penafiel.

A partir dessa época, a mancha agrícola amplia-se e com ela a densidade populacional. Formam-se novos aldeamentos e a estes crescimentos responde nova organização político-socail do Condado Portucalense.

Marca-se o século XI no calendário. O condado divide-se em "terras" atribuídas a um senhorio e as populações rurais organizam-se em lugares ou aldeias, julgados e concelhos, paróquias e dioceses.

Na segunda metade do século XIII, o julgado e terra de Penafiel abrange a paróquia de S. Genésio de Boelhe, antiga Bunili, igreja dos descendentes de Martim Peres.

Protegidos agora por condes ou reis, quase todos ligados por fundação a linhagens poderosas da região que possuem terras mais ou menos vastas em seu redor, mosteiros e igrejas têm um papel relevante na sociedade do tempo e na sua sedimentação.

Mormente as igrejas, no seu sítio, no seu ambiente natural e humano, simbolizam as povoações que nelas revêem a dimensão do seu passado.

Elas estão sempre no enquadramento vivido.

Integrada numa das paisagens mais tradicionais das margens do Tâmega, assinalou a marcha vítoriosa dos cristãos sobre as terras conquistadas aos infieis.

Há um modo de decorar típico da Bacia do Sousa e do Baixo Tâmega, ao qual se chama "românico nacionalizado".

Este templo representa esse "dialecto" próprio na estima pela decoração vegetal sempre feita a bisel e de desenho perfeito, e no tamanho dado à palmeta que se torce e decora capitéis, cujo cesto tanto se arredonda como se salienta em forma de bico de lamparina.

Como as marcas dos ourives e os selos dos notários, as siglas de canteiro que aparecem em todas as pedras do muro exterior,  reflectem o prestigío desse ofício nauqela época.

 

De um modo  geral, pelos finais do século XII e durante a centúria seguinte, o cachorro apresenta figurações humanas ou animalescas. No lado norte do edifício, há uma exuberante série de modilhões figurando cabeças de touro e homens transportando pedra.

Ao invés, a cachorrada sul é simples, talvez por este lado ter sido destinado a construção anexa, que a encobriria.

A arquitectura destes tempos estava carregada de simbolismo. O altar-mor, que era também túmulo, recebia a luz divina através da fresta do topo com os raios do sol-nascente, as colunas equiparavam-se aos apóstolos e o portal ocidental era como que a "Porta do Paraiso".

Os espaços de culto ocupam um lugar primacial na usufruição da conciliação do homem com a divindade. Por isso, a sua construção é a concretização de um pensamento gerado e de uma vontade forte. Pela excelência de funções que neles se desenvolvem, o seu arranjo arquitectónico requer-se cuidado, ornado e belo porque no seu interior se realiza e revela o sagrado.

Possivelemente eregida sobre as ruínas de um templo visigótico, o passado que aqui veio nascer parece volver quando a dobradiça para ela renascer.

Os sítios nunca param. Há fíleiras de casas, às vezes só fachadas, trancadas em pedrarias que desfolham narrativas de outros dias.

São lamúrias passadas, heranças caídas ou vidas entretecidas no fundo de um alvéolo agrícola onde o tempo vacila e se aguenta.

Lisas e lajeadas para se desgranar e secar o cereal, resistem, demoradas sob o temporal das horas que possivelmente as vai afogar.

Desconhece-se o precíso momento em que o homem se serviu das paredes do Tâmega para nelas montar estruturas ligeiras, quadrangulares, que dia e noite não paravam de laborar: "dos 5 assudes que tem este rio no limite desta freguesia, que todos servem de pescar lampreias, só 2 delles tem moinhos de moer pão."

Assim era em 1758. Nos últimos dias de Junho de cada ano, quando a água escasseava nos ribeiros e poças, instava-se o moinho, de madeira frágil construído, primeiro de colmo coberto, depois de chapa abrigado.

Abeirados pela descida, toda uma vida trepida no ousado desmascarar do passado.

Vão curvados sob o peso do cereal à cabeça transportado ou aliviados pelo dorso do animal, os fregueses que percorrem esse caminho empoado.

Agora pardacentos e arruinados, jazem como pedaços sepultados na correria dos ventos.

Outros, recuperados, emergem como sustenidos entalhados na assimetria dos tempos.

Por entre a água escorrem memórias à deriva. A de barcos e baixios que já não servem os rios. Construídos numa reio, em local próximo aquele em que viriam a ser usados, carregavam pessoas e gado que um só barqueiro, tambem agricultor e/ou moleiro, passava para o outro lado.

De banda a banda por demanda de gentes, assim se balançaram anos a fio até surgir um novo desafio. Vieram as pontes e eles irremediavelmente pararam.

De corrente impetuosa e natureza implacável, foram muitos os pelos para o tornar navegável. Hoje, avistado de longe, absorto, já se não move. Espreguiça-se deitado e acaricía quem a ele se aborda sussurando uma melodia que até a Deus acorda.


 

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